28 de agosto de 2017

Crônicas em Série - Aço Líquido



Esse texto é antigo, mas é um dos meus preferidos.


"Meu coração não cabe dentro do peito. É como aço líquido numa caldeira prestes a entornar; revolve minhas tempestades pelos olhos, elas entornam sem pudor. Me agonio e tremo pelo pesar de não ser amor. Meu coração não cabe no peito, é um grito que cabe dentro dele, um sussurro, um vento, o frio solitário. Fecho os olhos, a imagem. Abro os olhos, é só miragem. [Ainda sinto o perfume dele]. Não sei, mas acho que já me esqueci como é o rosto por trás da fumaça, as vezes acho que foi amor, vasculho dentro de mim, nada. Mas dos meus olhos descem cachoeiras, mares, chuvas, lágrimas que eu mal posso controlar. Minha vida não cabe dentro de mim, estou estática, olhando o vazio que você deixou no meu lado de dentro. Levo minha alma vazia pra tomar banho, beber vinho, comer no italiano de sempre. Entro no restaurante muito pequeno, estou feito turista de havainas, vestido e batom vermelho, o cabelo está solto, descedo pelos ombros. Quero estar sozinha mais um momento. O homem com sotaque do sul me pergunta o que eu quero. Quero responder que quero meu coração transbordando, mas acabo pedindo massa e bife à parmegiana com o vinho da casa. A mulher do balcão enxuga um prato lentamente e olha para o pequeno lustre enquanto eu observo cada fotografia antiga da parede, cada quadro, cada grarrafa de azeite. A luz é fraca, aconchegante, e não está um dia frio. Meu coração no entanto, se arrepia, geme. O aço líquido se choca com as minhas vontades e me desespero sabendo que do outro lado da mesa não há ninguém. Percebo o quanto queria alguém. Alguém que não mentisse todas as mentiras, que não beijasse todos os beijos, alguém que não fosse frustrante. Desejei ali uma vida pacata sem os compromissos, agenda cheia, sem teu perfume que era horrível. O vinho chegou, o homem ao lado fala espanhol, está falando de Santiago de Compostela, e percebo que tenho a mania irritante de conversar com todo mundo como se fossem meus velhos e caros amigos de sempre. Isso não é muito decente, por que percebo que eu e você nos tornamos estranhos dentro do mesmo mundo. O homem do restaurante coloca meu prato e o espanhol decide permanecer em silêncio. Olho para o nada novamente na ilusão ingrata de te imaginar. Sinto uma mão no meu ombro: "él no merece la pena, un hombre debe hacer una mujer feliz, teniendo en cuenta que ella es hermosa." Não, eu não disse nada, não contei que meu coração descia as escadas do rancor. O espanhol pagou a conta e se foi para Santiago novamente, talvez ele reze por mim um dia. Eu fiquei sentada na mesa, a mulher que enxugava o prato agora olha pra mim como se me entendesse, era tudo que eu precisava numa noite como essa...

Sinto todo aço entornar pelos olhos, meu coração finalmente transbordou."

[Deus! Condenado eu fui A forjar o amor No aço do rancor E a transpor as leis Mesquinhas dos mortais...]"

O texto é levemente inspirado na música Fênix do Jorge Versilo.
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